Apelidada carinhosamente de “Millie”, Mildred Prevost era bibliotecária, cantora de coral, ativista paroquial e uma das grandes influências espirituais de Robert Prevost, agora Papa Leão XIV.
Eleito nesta quinta-feira (8) como Papa Leão XIV, o norte-americano Robert Francis Prevost tornou-se o primeiro pontífice nascido nos Estados Unidos e uma figura histórica para a Igreja Católica. Mas por trás da trajetória acadêmica, missionária e pastoral do novo papa, há uma figura central pouco conhecida do grande público: sua mãe, Mildred Agnes Martínez Prevost — a mulher que plantou as sementes da fé, da disciplina e do serviço comunitário em sua formação.
Uma mulher à frente do seu tempo
Filha de imigrantes com raízes crioulas e haitianas, Mildred nasceu em 1912 em Chicago, em uma família que carregava tanto a riqueza cultural de Nova Orleans quanto o peso da complexa identidade racial americana. Seus pais, Joseph Martinez e Louise Baquié, viveram no tradicional bairro negro Seventh Ward, em Nova Orleans, antes de se mudarem para o norte dos EUA. Foi ali, entre livros e orações, que Mildred cresceu com cinco irmãs — duas das quais se tornaram freiras — e consolidou seu amor pela fé e pelo conhecimento.
Formada em Biblioteconomia pela Universidade DePaul, Mildred também concluiu um mestrado na área educacional. Atuou por décadas como bibliotecária, enquanto dedicava seu tempo livre a atividades na igreja da comunidade de St. Mary, em Chicago. Segundo paroquianos ouvidos pelo Chicago Sun-Times, ela era “a alma da igreja”: organizava missas, liderava grupos religiosos, limpava o altar e encantava a todos com sua voz no coral.
Casada com Louis Prevost, veterano da Marinha e educador de ascendência francesa e italiana, Mildred teve três filhos — entre eles, Robert, que mais tarde abraçaria o sacerdócio e se tornaria líder máximo da Igreja Católica.
O legado silencioso de fé, cultura e ancestralidade
Mais do que uma mãe presente, Mildred foi o alicerce espiritual e moral de sua família. Ao lado do marido, chegou a fundar a biblioteca da paróquia no porão da escola comunitária. Liderou a Sociedade do Altar e do Rosário, organizou campanhas sociais e permaneceu como figura respeitada na comunidade até sua morte, em 1990, aos 78 anos.
Seu legado, porém, vai além da dedicação religiosa. Documentos genealógicos reunidos pelo pesquisador Jari C. Honora revelam que os avós maternos do Papa Leão XIV eram classificados como “pessoas livres de cor” em Nova Orleans, remontando ao século XIX. Um dado que conecta Robert Prevost a uma ancestralidade afrodescendente e crioula — ainda que a família nunca tenha se identificado publicamente como negra.
John Prevost, irmão do pontífice, confirmou ao New York Times a autenticidade dos registros, destacando que parte da família aparece identificada como negra ou mulata em certidões históricas. A certidão de casamento dos avós, por exemplo, data de 1887 e confirma o nascimento de Joseph Martinez no Haiti.
Uma eleição que ressoa além do Vaticano
A eleição de Leão XIV movimentou não apenas os corredores do Vaticano, mas também gerou comoção em comunidades históricas dos EUA. O deputado Troy Carter, representante de Nova Orleans, declarou orgulho pela conexão do novo papa com as raízes crioulas e haitianas da cidade. “Como homem negro e filho de Nova Orleans, vejo com alegria os laços ancestrais do Papa Leão XIV com nossa história”, disse em comunicado oficial.
Apesar de nunca ter comentado publicamente sobre sua herança racial, a trajetória de Leão XIV representa a síntese de culturas, continentes e experiências. Além da cidadania norte-americana, ele obteve a nacionalidade peruana em 2015, após anos de missão no país, onde liderou a Diocese de Chiclayo até 2023. Conhecido por sua atuação pastoral entre comunidades carentes e por sua habilidade diplomática, foi nomeado cardeal em 2023 e assumiu, meses depois, o cargo no Vaticano responsável pela nomeação de bispos.
Leão XIV: entre culturas, continentes e gerações
Nascido em 1955, Robert Prevost traz em seu pontificado não apenas a representação geográfica dos Estados Unidos, mas a força silenciosa das mulheres como Mildred — cuja fé inabalável, compromisso com a educação e dedicação comunitária moldaram, de maneira decisiva, o homem que hoje lidera mais de 1,3 bilhão de católicos no mundo.
Ao assumir o papado como Leão XIV, Robert carrega consigo não apenas os desafios do presente, mas também as vozes do passado — entre elas, a de Millie, sua mãe, cuja história agora ecoa desde os bancos da paróquia de St. Mary até os salões da Basílica de São Pedro.

