Aventura é mais que um estilo de vida para Karina Oliani — é o que move cada passo, cada escolha, cada conquista. Médica de áreas remotas, jornalista e atleta, ela foi a única brasileira a escalar o Everest pelos dois lados e ainda entrou para o Guinness Book ao cruzar um dos maiores lagos de lava do mundo em uma tirolesa. Isso mesmo: sobre um mar incandescente de lava, na Etiópia.
“Tudo o que fiz na minha vida tem a ver com o imprevisto, o ousado, o desconhecido. Isso é aventura pra mim”, conta Karina.
E essa sede de ir além começou cedo. Com apenas 12 anos, ela já havia saltado de paraquedas e se tornado mergulhadora certificada. Aos 18, já era bicampeã brasileira de wakeboard. Aos 20, repetia o feito no snowboard. “Se o esporte ficava fácil demais, perdia a graça. Eu queria o próximo desafio.”
No Topo do Mundo
Foi essa inquietude que a levou ao montanhismo. “Se era pra escalar, que fosse a maior montanha.” Em 2013, aos 31 anos, Karina tornou-se a brasileira mais jovem a chegar ao topo do Everest. Em 2017, ela superou ainda mais: virou a primeira mulher latino-americana a escalar o Everest pelos dois lados, a face sul e a temida face norte — mais técnica e desafiadora.
“Diziam que eu não tinha experiência, que nunca tinha feito uma montanha de 8 mil metros. Mas eu fui, fiz e fui muito bem.”
Antes disso, em 2010, passou quatro meses no acampamento-base do Everest como médica, estudando os efeitos da altitude nos alpinistas. “Pesquisava por que alguns não conseguiam chegar ao cume. Isso me preparou. Sempre fui uma aventureira estudiosa.”
Mas não parou por aí. Em 2019, escalou o K2, a segunda montanha mais alta e mais perigosa do mundo, no Paquistão. E ainda conquistou um recorde inédito: a mais longa travessia em tirolesa sobre um lago de lava, suspensa a mais de 100 metros da cratera incandescente do vulcão Erta Ale. “Diziam que eu era louca. Mas eu não faço essas coisas pra morrer — faço porque amo a vida.”
Do Medo à Superação
Com tantos feitos extremos, o risco sempre esteve presente. Aos 18 anos, durante um treino de wakeboard, sofreu um acidente grave: caiu de pescoço no chão e perdeu os movimentos do corpo. O diagnóstico foi um choque medular. “Ainda no hospital, sem saber se voltaria a andar, fiz uma promessa: se eu voltasse, dedicaria minha vida a ajudar outras pessoas.”
Depois de horas sem sentir nada, os movimentos começaram a voltar. “O médico enfiou uma agulha no meu pé e eu gritei. O hospital inteiro comemorou.”
Seis meses de repouso, três com colar cervical — e uma decisão: estudar medicina.
Medicina Pelo Mundo
Karina entrou na Faculdade de Medicina do ABC aos 19 anos. Formou-se em 2007 e se especializou em medicina de urgência e áreas remotas. Tornou-se a primeira médica latino-americana a fazer um fellowship na Wilderness Medical Society, além de estudar medicina aeroespacial, de guerra, de selva, de mergulho e de alta montanha.
Fundou a ABMAR, voltada à medicina em ambientes extremos, e co-fundou o Instituto Dharma, que oferece atendimento médico gratuito em comunidades carentes. Desde 2015, o projeto já passou por oito países e realizou mais de 22 mil atendimentos com 440 voluntários. “Hoje, faço a medicina que amo: ajudar quem mais precisa.”
Das Montanhas para as Telas
Além das expedições e atendimentos, Karina também transformou suas aventuras em conteúdo audiovisual. Mesmo sem formação na área, trabalhou como jornalista para grandes canais como Record, Globo, Discovery, Canal OFF e Facebook Watch.
Mais tarde, fundou sua produtora, a Pitaya Filmes, que criou reportagens para programas como Fantástico e Esporte Espetacular. “Além das paisagens inóspitas, gosto de mostrar novos esportes que surgem — e que eu mesma adoro experimentar.”
Rompendo Barreiras
Mas os maiores desafios de Karina não foram só físicos. Ser mulher, atleta, médica e produtora, muitas vezes exigiu provar seu valor. “Não precisava falar que era forte. Eu mostrava. Assim conquistei respeito.”
Agora, aos 42 anos, encara novos paradigmas. “Já ouvi que mulher aventureira, mãe e com mais de 40 não tem mais espaço na TV. Mas sigo ultrapassando essas barreiras.”
A Maior de Todas as Aventuras: Ser Mãe
Mãe de Kora, de três anos, Karina encara a maternidade como sua missão mais intensa. “Nada é mais completo do que formar uma nova consciência neste mundo.”
Kora já a acompanhou em aventuras por mais de dez países. E Karina quer mais: “Antes de matemática e física, quero que ela aprenda a meditar. Controlar a mente é essencial.”
O Que Vem por Aí?
Mesmo com tantos feitos, Karina não desacelera. Sua nova meta é conquistar quatro recordes inéditos, um para cada elemento da natureza: ar, terra, selva e água.
E a força para continuar vem das mensagens que recebe. “A minha história é só uma ferramenta. Quero que as pessoas entendam que também podem alcançar seus sonhos — seja qual for o tamanho deles.”