Mulheres não deveriam precisar escolher, por Juliana Zanrosso.
Ainda muito positivamente impactada com o Nobel de Economia 2023, entregue a Claudia Goldin pelo seu longo e espetacular estudo sobre mulheres no mercado de trabalho, venho lendo e me aprofundando nas discrepâncias de gênero observadas em diversos campos profissionais. São tantos os motivadores de mais debate, que relutei em escolher apenas um. Acabei optando por aquele tópico que me é mais precioso: a maternidade, que continua a ser um ponto de inflexão onde as trajetórias profissionais de homens e mulheres divergem significativamente.
Por que há um efeito negativo nos rendimentos à medida que as mulheres se tornam mães? E por que o efeito persiste? As respostas a essas perguntas podem estar relacionadas a um padrão empírico observado em todos os lugares: as mulheres assumem a maior parte das responsabilidades de criação dos filhos. Nos seus trabalhos, Goldin apresenta uma estrutura de diferenciais compensatórios, onde mulheres recebem uma penalidade salarial por demandarem um trabalho flexível o suficiente para serem a mãe de plantão. Em contrapartida, homens são recompensados por estarem sempre disponíveis para atender às necessidades do empregador, criando uma disparidade salarial baseada na disponibilidade.
Goldin apresentou a flexibilidade no local de trabalho como um fator contribuinte, mas outras explicações não podem ser descartadas. Por exemplo, crenças arraigadas podem levar as mulheres a tomar decisões sobre carreiras, incluindo pausas e cuidar dos filhos, para evitar os custos reputacionais associados a se desviarem de um comportamento prescrito. Marianne Bertrand, em seu artigo “Gender in the Twenty-First Century”, discute como essas crenças desempenham um papel crucial na perpetuação das desigualdades no mercado de trabalho.
Os estereótipos de gênero são crenças amplamente compartilhadas sobre as habilidades e papéis específicos de homens e mulheres, e podem ser tanto descritivos, que versam sobre o que homens e mulheres tipicamente fazem ou são, quanto prescritivos, que são crenças sobre o que homens e mulheres devem fazer ou como devem ser. Uma melhor compreensão de como operam esses modelos categorizados, que atribuem a elas a maior parte das responsabilidades de cuidado, é crucial para abordar as barreiras restantes à igualdade de gênero.
A relevância da maternidade e a necessidade de criar um ambiente onde as mulheres não precisem escolher entre responsabilidades familiares e o avanço na carreira são cruciais, e incluem expedientes com horários flexíveis, trabalho remoto e a possibilidade de pausas na carreira sem penalizações salariais; políticas de licença parental equitativa que incentivem homens a compartilhar igualmente as obrigações nas criações dos filhos; programas de treinamento e desenvolvimento contínuo que permitem às mulheres retomar ou acelerar suas carreiras após a licença; além de campanhas educacionais e iniciativas corporativas que abordem e desafiem os estereótipos de gênero.
Os benefícios de permitir que as mulheres conciliem responsabilidades familiares e de carreira são significativos. Estudos mostram que a maior participação das mulheres na força de trabalho e em posições de liderança impulsiona a produtividade, a inovação e o crescimento econômico. Sociedades que promovem a igualdade de gênero no mercado de trabalho são mais justas e eficientes, aproveitando plenamente o talento e o potencial de toda a sua população.
Em última análise, e ainda longe de encerrar a pauta, a criação de um ambiente que apoie as mulheres a viverem plenamente suas experiências como mães e profissionais é essencial não apenas para a justiça social, mas também para o progresso econômico sustentável. Ao eliminar as barreiras que forçam as mulheres a escolher entre carreira e família, podemos construir uma sociedade mais equilibrada e próspera para todos.
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